Ás sete da manhã, Ernesto viu entrar um velho de rosto bondoso e cabellos brancos. A batina preta, a sobrepeliz, e sobretudo a doce expressão d'aquelle rosto, fel-o comprehender que tinha na sua presença o pastor das almas d'algum povoado proximo.

O sacerdote e o pintor estiveram fechados tres horas. O que disseram pertence ao segredo inviolavel da confissão.

Quando o padre sahiu, entrou Mauricio.{176}

Ernesto disse-lhe:

—Faze favor de pôr uma tela no cavallete e de o levares bem como esta cadeira para proximo da janella. Vou fazer o meu ultimo trabalho.

Ernesto pegou na paleta, nos pinceis e sentou-se porque não podia trabalhar de pé, principiando a esboçar uma Nossa Senhora das Dôres.

Apezar do seu estado, pintava com incrivel ligeireza.

A febre da morte guiava-lhe a mão.

Em dia e meio pintou uma formosa mãe do Nazareno, de corpo inteiro; mas aquella virgem, apezar da doce melancholia do seu semblante, era um perfeito retrato da condessa de Loreto.

Evidentemente aquella obra feita de momento, aquelle trabalho feito ás portas da morte, era uma das melhoras obras de Ernesto.