—O interesse e o carinho que têem dispensado a este pobre doente, nunca o pagarei sufficientemente. Mas deixemos esse assumpto, e ouve.

Ernesto fez uma pausa, pegou n'um rolo de papeis e n'uma carta, e disse:

—Quando eu morrer, e depois do meu enterro, vaes a Madrid onde tens duas commissões a desempenhar da maior importancia. Esta carta para os meus amigos da rua do Prado, e os tres retratos e esta outra carta para o senhor conde de Loreto. Indubitavelmente{175} todos, ao saberem que deixei de existir, querem saber pormenores da minha morte. Dize-lhes o que vires, a verdade. E agora só me falta dizer-te que encontrarás escripto e assignado n'esta folha de papel, que te deixo como herança, como livre senhor que sou de tudo, que me pertence; isto é, tudo isto que nos rodeia, inclusivamente o pouco dinheiro que eu tiver na gaveta da commoda, é teu e de tua mulher.

Mauricio que havia já um boccado luctava para suster as lagrimas, levou as mãos aos olhos.

—Vamos, não te afflijas; da-me um abraço e vae-te deitar. Só tenho ainda a pedir-te para que ámanhã cedo me tragas um padre, porque é bom pensar em Deus alguns minutos antes de morrer, quem esteve tantos annos occupando-se sómente dos pygmeus da terra.

Mauricio precisava sahir d'aquelle quarto para chorar desafogadamente; entrou na cosinha, contou a Petra tudo quanto se passára e acabaram por desatar em amargo pranto.

N'aquella noite nem Petra nem Mauricio puderam dormir.

De quando em quando vinham em bicos de pés até a porta do quarto de Ernesto, e espreitavam pelo buraco da fechadura.

Ernesto continuava sentado na cadeira, ora escrevendo, ora com os cotovellos encostados na borda da meza, e a cabeça appoiada nas mãos.

Pouco antes de amanhecer, Mauricio montou a cavallo e foi chamar o padre.