Petra chorou, e contou ao marido o que o medico lhe dissera.
Estavam verdadeiramente impressionados.
Quando Mauricio á noite entrou com a luz no quarto de Ernesto este estava sentado n'uma cadeira proximo da mesa.
Ardia um bom fogo no fogão e, apezar do frio não ser muito, Ernesto queixava-se de que se sentia gelado; era a morte, que avançava a passos gigantescos para se apoderar do coração, para extinguir a vida n'aquelle corpo, para separar a alma da materia.
—Mauricio, poe ahi a luz, approxima uma cadeira, senta-te aqui a meu lado, disse o pintor, porque temos muito que conversar e não temos tempo a perder.
Mauricio obedeceu sem dizer uma palavra. Só de quando em quando olhava para o cadaverico semblante do seu hospede, pensando que já tinha visto defuntos com muito melhor parecer.
—Tudo n'este mundo tem o seu fim, meu amigo, ajuntou Ernesto com voz fraca e pausadamente. O dia nasce e morre como a planta e o homem. A vida, como o canto do passaro, como as folhas das arvores, está sujeita á vontade do Creador. Rebellarmo-nos contra tal, é uma loucura, uma temeridade ou uma cobardia. Ninguem se salva da morte, ainda que diga com toda a força do seu desespero: «Não quero morrer.» Assim, pois, é preciso resignarmo-nos. Toda a sabedoria, toda a sciencia, toda a grandeza do homem não é sufficiente para prolongar um segundo sequer a sua vida. Alexandre como Cesar,{174} Aristoteles como Cicero, morreram quando soaram as suas horas, apezar de serem quem foram. A minha approxima-se e é preciso preparar tudo para a minha ultima viagem.
Ernesto deteve-se, respirou, levou a mão ao peito e fixou os olhos em Mauricio, cujo semblante compungido, manifestava a profunda magua da sua alma, porque as palavras sentenciosas e tristes do seu hospede, a quem estimava como a um pae, o affligiam.
—Quero, pois, meu bom Mauricio, inteirar-te do que tens a fazer no dia seguinte ao da minha morte, que não está longe. Por isso, te pedi para te sentares e que me prestasses attenção. Dei grandes incommodos tanto a ti como a tua mulher; têem sido bons amigos para mim, devo-lhes muitos favores, e é por conseguinte meu dever não os esquecer na hora da minha morte. Quizera ser rico como um nababo para lhes deixar toda a minha fortuna, pois bem sabes que não tenho herdeiros forçados; mas, apezar de ser muito pobre, farei tudo quanto possa para os recompensar em parte de todos os beneficios que recebi.
—Mas, senhor Ernesto, nós é que devemos estar agradecidos ao senhor, disse Mauricio, porque desde que tivemos a fortuna de o vêr entrar para nossa casa, têem sido muito maiores as recompensas que temos recebido do que os insignificantes serviços que lhe temos prestado. Por isso não temos que falar sobre esse assumpto.