Estava muito doente, mas continuava regeitando os conselhos dos amigos e os auxilios da sciencia.
Durante os mezes da primavera, pareceu fortalecer-se alguma cousa. Passou o verão um tanto alliviado, trabalhava pouco, e ainda por duas vezes mandára Mauricio a Madrid levar quadros de caça ao conde, ficando em seu poder os retratos completamente concluidos, dizendo:
—Isto será a minha despedida, o meu testamento. Chegou o mez de outubro, e Ernesto com os primeiros frios, apanhou uma recahida e perdeu por completo o appettite; apenas se levantava para se sentar na cadeira e d'esta para se metter na cama. Mauricio e Petra insistiram varias vezes com elle para o convencer a que chamasse o medico.
—É inutil, meus amigos, dizia-lhes, talvez que em breve me faça mais falta um sacerdote.
Uma noite, Ernesto peorou a tal ponto, que Mauricio, sem o consultar, montou a cavallo, foi ao povoado de Orgaz e trouxe um medico.
Ernesto, ao vêl-o entrar, ao perceber a que vinha, encolheu os hombros, dirigiu um olhar de gratidão a Mauricio, e disse:{173}
—Tudo isso é inutil. O que preciso ámanhã é de um sacerdote.
O medico viu effectivamente que a doença de Ernesto era incuravel, receitou por simples formalidade e disse que o chamassem se houvesse mais alguma novidade.
Ao sahir, disse a Petra:
—Chamem o padre com urgencia, porque este homem apenas tem tres dias de vida.