—Enganei-me na importancia, continuou o conde: em logar de seis mil duros são dez mil.
Mauricio empallideceu. Era uma fortuna.
O conde entretanto contou dez mil duros em notas do banco de quatro mil reales, e, collocando-os depois n'uma bandeja, approximou-se de Mauricio, dizendo:
—Isto é o que Ernesto Alvarez deixa como herança a Mauricio e Petra pelo seu generoso comportamento, pelos seus bellos sentimentos. Agora eu, o conde de Loreto, offereço a Mauricio, quando se fartar de ser caçador, o logar de administrador{183} em um monte nas Asturias, com vinte e cinco reales por dia, casa, lenha e mais vantagens que me não recordam agora.
E o conde, apertando a mão ao honrado montanhez, ajuntou:
—Vá a Toledo, diga a sua mulher o que o senhor Ernesto dispôz na sua ultima carta, pense socegadamente o que mais lhe convêm, que aqui me encontrará sempre disposto a cumprir a minha palavra.
Mauricio pegou com a mão trémula nos dez mil reales, apertou depois de encontro ao peito a mão do conde e, com olhos marejados de lagrimas e o parecer bastante commovido, disse:
—Mas que fiz eu para merecer tantos favores?
—Foi um homem de bem, um homem justo, respondeu o conde.
—Ah! a minha pobre Petra vae enlouquecer de alegria. Ella que dentro em pouco vae ser mãe! Ella, que nunca viu cem mil reales! Ella que é tão boa! Todos os nossos filhos aprenderão a bem dizerem os nomes do senhor Ernesto e do senhor conde de Loreto.