O pintor chamou o creado e disse-lhe:

—Amanha, quando te levantares, vaes a Roma entregar esta carta ao sr. Daniel, negociante de quadros. Mora no bairro dos judeus; já o conheces.

Depois deitou-se para sonhar com Florença e Amparo.

Ernesto achava-se na ditosa edade dos sonhos côr-de-rosa, e viu durante algumas horas passar pelos olhos da sua illusão um panorama encantador onde a flôr mais perfumada, mais bella, mais resplandecente, era Amparo que, olhando-o com languidez, lhe dizia uma e mil vezes mais: «amo-te! amo-te! amo-te!»

E para que desperta um homem d'estes sonhos encantadores?{23}

[CAPITULO IV]

O pintor e o judeu

Daniel Raithany era um dos maiores negociantes do bairro judaico. Tinha em toda a Europa fama de intelligente e honrado, apezar de ninguem ignorar que vendia caro e comprava barato. Esta qualidade era descupavel, tratando-se de um negociante judeu; mas, em compensação, tinha uma grande qualidade, que era que quando um admirador de pintura, ainda que de Londres, Paris, Vienna, S. Petersburgo, Madrid ou de qualquer das grandes capitaes da Europa necessitava para a sua galeria um quadro d'este ou d'aquelle auctor celebre, escrevia-lhe uma carta, e não olhando a preço tinha o que desejava.

Nunca enganava ninguem, dando uma copia por original. Daniel era intelligente, e apezar de não saber pintura, tão conhecedor era das escolas que mais de uma vez, em casos duvidosos, o chamavam como períto.

Todos os pintores eram amigos de Daniel e era tão difficil enganal-o vendendo-lhe gato por lebre, como vulgarmente se diz, que ninguem tentava fazel-o.