Dizia-se que o negociante conseguira juntar muitos milhões. Comtudo a sua loja apresentava sempre o mesmo aspecto modesto, e a sua pessoa conservava a mesma linha; isto é, usava constantemente uma sobrecasaca verde com grandes abas, calças e collete preto, uma gravata de velludo, um chapéu usado, um chapéu de chuva velho debaixo do braço e uma cadeia d'aço, em cuja extremidade estava preso um modesto relogio de prata.
Daniel era um homem alto, magro e pallido, nariz arqueado, cabello grisalho, olhos verdes, pequenos o encovados; um d'esses typos vulgares, mas em{24} quem, olhados com attenção, se encontra bondade e doçura no semblante.
Ernesto estava pintando. Eram dez horas da manhã quando viu entrar no atelier o judeu.
Daniel entrou como sempre, sorrindo-se, com o chapéu de chuva debaixo do braço, e a caixa do rapé que nunca abandonava, na mão esquerda.
—Bons dias, millionario, disse Ernesto, extendendo-lhe a mão. Muito agradecido pela sua pontualidade.
—Em questão de dinheiro, respondeu Daniel, é preciso sermos pontuaes, e aproveitarmos o tempo. Por um minuto se póde perder um bom negocio.
—Pelo que se vê o senhor é negociante até á medulla dos ossos. Mas vamos falar do nosso.
O pintor deixou a paleta e os pinceis, indicou-lhe uma cadeira e sentou-se n'outra.
—Preciso dinheiro.
—Já o suppunha.