—Que bello grupo!

—Sim, senhora D. Amparo, respondeu Ernesto. Para os que têem a arte em alguma conta só para vêr esse grupo vale a pena vir a Florença, ainda que das regiões mais afastadas do universo. Essa{34} scena é tão sublime, tão dramatica, que os exigentes criticos de Athenas inclinaram a cabeça com admiração, assombrados de tão grande obra. Na figura da mãe está toda a alma de Scopas.

D. Ventura, que não compartilhava do enthusiasmo do pintor nem de Amparo, um pouco enfadado com tantas exclamações, nas quaes não podia tomar parte por se julgar profano no assumpto, disse, instigado pela curiosidade:

—Mas o que representa esse grupo que tanto admiram?

—Scopas foi um artista pagão. No seu tempo estava em moda a Mythologia, e os homens adoravam as deusas e os deuses do Olympo, apezar dos seus defeitos e fraquezas, disse Ernesto. Pois bem, Niobe era filha de Tantalo e esposa de Anfior, rei de Tebas, tão presumida da sua fecundidade, que se queixou amargamente aos deuses vendo que no Olympo se dava sensivel preferencia sobre ella á deusa Latona, filha de Saturno e de Febe, mãe de Apollo e Diana, e esposa, segundo se assegura, de Jupiter. Os deuses irritaram-se da soberba d'aquella pobre mortal que se atrevia a refutal-o e combinaram um terrivel castigo. Appollo e Diana feriram com as suas flechas os filhos de Niobe; Jupiter converteu em pedras os subditos da orgulhosa rainha de Thebas, que queria ser mais do que uma deusa. Durante nove dias, os filhos de Niobe permaneceram no solo cobertos de sangue; a agonia foi grande, terrivel, tragica, até ao grau mais sublime; Niobe, louca de dôr e de amargura, derramando um mar de lagrimas, arrancando os cabellos de desespero, pedia soccorro com gritos d'alma, mas os seus vassallos permaneceram immoveis e indiferentes. Por fim ao decimo dia Jupiter compadeceu-se d'aquella mãe e julgando-a já sufficientemente castigada, tornou á vida os thebanos, permittiu que tomassem algum alimento, mandou enterrar os filhos, e convertendo Niobe em uma rocha, collocou-a no cume d'um solitario monte, onde chora eternamente a perda dos queridos fructos das suas entranhas, sendo um{35} monumento de vergonha dos vingativos deuses do Olympo.

Quando Ernesto acabou o conto mythologico D. Ventura, movendo a cabeça em signal de duvida, disse:

—Mas tudo isso é uma fabula.

—Que deu bastante assumpto, respondeu o pintor, para que Scopas, deixasse essa sublime e inimitavel esculptura, que é uma verdade admirada por todas as nações; grupo sublime do qual nos permittirá que tiremos um rapido croquis.

E Ernesto começou a copiar a obra prima do celebre filho de Paros.

D. Ventura encolheu os hombros, e emquanto Amparo e Ernesto desenhavam a Niobe, entreteve-se a vêr os bustos antigos, as estatuas egypcias, os sarcophagos e o retrato de Bruto feito por Miguel-Angelo.