—É preciso pensar na nossa volta para Hespanha, e contando que sempre nos demoraremos quinze dias em Paris, não temos muito tempo para permanecer em Florença.
Isto foi um grito de alarme para Ernesto. Era tão feliz ao lado de Amparo!
Os vinte cinco dias passados em Florença tiveram para elle a duração de um minuto. Milhares de vezes durante esse periodo esteve a ponto de lhe assomar aos labios o segredo que se lhe occultava no coração.
O receio detinha-o. Amava Amparo com tão firme, tão pura paixão, que o medo de um desengano lhe emmudecia a bôcca.
Uma tarde D. Ventura sahiu para receber uma lettra. Amparo, sentada proximo da janella, entretinha-se em colleccionar e guardar um grande numero de desenhos, feitos pelo seu companheiro, das bellezas artisticas que juntos tinham admirado.
Ernesto entrou no gabinete. Amparo extendeu-lhe a mão sorrindo-se:
—Bem vê, senhor Ernesto, que como a nossa partida se approxima, occupo-me em colleccionar convenientemente estes preciosos desenhos, que conservarei{39} toda a minha vida, pois encerram a historia d'esta viagem encantadora, viagem que, como todas as cousas terrestres, tem que acabar em breve.
Ernesto julgou ouvir sair um debil suspiro dos labios de Amparo. O seu coração bateu com violencia, fez-se pallido e como receasse que as forças o abandonassem, sentou-se n'uma cadeira ao lado da joven.
—Para que a vi em Roma?!
Esta exclamação que se lhe escapou do coração fez estremecer Amparo; mas serenando immediatamente disse: