—Tem pena que a casualidade nos tivesse feito amigos?
Ernesto deixou cair a cabeça sobre o peito. A sympathica physionomia do pintor tinha n'aquelle momento a expressão da mais profunda tristeza.
Amparo compadeceu-se d'aquelle amante respeitoso que se não atrevia a declarar-lhe o seu amor.
A compaixão, essa bella e delicada qualidade da alma da mulher, apoderou-se do coração da joven, e com uma doçura infinita, perguntou:
—Mas, meu Deus. O que tem, Ernesto? Nunca mais nos tornaremos a vêr?
Ernesto, que sentia penetrar no fundo do seu coração a doce voz de Amparo, levantou a cabeça, fixou n'ella um amoroso olhar, e disse:
—Irei a Madrid antes do fim de setembro; mas durante esses tres mezes que faltam, a minha alma viverá em eterna solidão, rodeada de triste melancholia porque vae partir, e eu amo-a como um louco.
Amparo córou. As suas formosas faces cobriram-se d'esse encantador carmim que tão bem assenta ás jovens e que tanto arrebatam e enlouquecem os homens.
—Sim, para que occultar-lh'o por mais tempo? continuou Ernesto. Deve tel-o comprehendido. Se os meus labios ainda lh'o não disseram, os meus olhos têem-lh'o confessado infinitas vezes. Quando se ama pela primeira vez, com a vehemencia filha de um{40} amor tão firme como verdadeiro, é trabalho em vão dissimulal-o. Os olhos revelam o sentimento da alma e atraiçoam-nos. Não é verdade, Amparo, que já tinha adivinhado que eu desde Roma a amava com toda a minha alma? Oh! isto certamente não era segredo para si.
Amparo suspirou. Os seus olhos bellos, cheios de melancholica expressão, fixaram-se com certo receio no joven, e com voz tremula e doce, respondeu: