—Sim, Ernesto, adivinhei-o e, não obstante, fui a causadora d'esta viagem. Se em Roma nos tivessemos separado, talvez que a estas horas já não pensasse em mim.
—Não pensar em si! Isso para mim é tão impossivel como seria a Tasso não pensar em Leonor, a Raphael esquecer a Fornarina, cujo retrato contemplámos os dois de mãos dadas em Roma, e cuja copia admirámos tambem em Florença. Para certos homens é um passa-tempo, uma nuvem de verão carregada de mais ou menos electricidade, mas que passa e que rapidamente desapparece; para outros, o amor é a vida, é a luz, é o ar que dá vida, força á imaginação, alegria á alma, porque o amor é para elle a unica luz que lhe embelleza tudo; tirando-lhe esse amor, ficam rodeados das mais profundas trevas e morrem de tristeza.
Ernesto ia continuar quando se ouviu a voz de D. Ventura, que falava na sala anterior com o senhor Rosales.
—Por Deus, Ernesto, disse Amparo com voz supplicante, que meu pae não suspeite nada!
—Esteja descançada, Amparo. Não receie que a importune; para amar não é preciso ser correspondido. Esta noite estarei á meia-noite no caramanchão do jardim. Espero-a até que amanheça: se vier, a bella flôr da esperança renascerá na minha alma, perfumando a minha existencia, se não vier, ámanhã, com qualquer pretexto, partirei para Roma e não nos tornaremos a vêr.
Amparo guardou silencio. Ernesto poz-se a arranjar{41} os desenhos, procurando dissimular a sua commoção.
Quando entraram Rosales e D. Ventura, os dois jovens occupados com os desenhos, não inspiraram a menor suspeita ao honrado commerciante.
—Fazem muito bem em dispor tudo, disse D. Ventura. Entre quatro ou cinco dias tomaremos o caminho de França.
—Com que então decididamente partimos, papá? perguntou Amparo.
—Filha, ha cêrca de tres mezes que sahimos da nossa casa, é preciso voltarmos a ella.