—Dizem que é um sujeito que deu muitos desgostos á mãe... disse Amparo.
—Em Madrid está sempre em ordem do dia a mexeriquice: O conde de Loreto é um rapaz como muitos outros, que se divertem quanto podem, porque teve a sorte de herdar dos paes uma grande fortuna. Imagina que esse rapaz tem agora 28 annos, possue uma fortuna de quinze milhões. Demais, dizem que{48} é muito instruido. O nosso hospedeiro não se cança de o gabar.
—É um bom hospede, disse Amparo, sorrindo-se.
Ernesto não tomava parte na conversa: desagradava-lhe ouvir elogios do conde.
Mas deixemos correr as horas, e com a rapidez do pensamento transportemo-nos ao jardim da casa que occupavam os nossos conhecidos.
Os relogios de Florença acabam de dar as onze e tres quartos, quando Ernesto saltou da janella para o jardim dirigindo-se para o caramanchão, coberto de madresilva, lupulo e hera.
Dentro do caramanchão haviam quatro bancos e uma mesa. Ernesto sentou-se n'um disposto a esperar toda a noite como tinha dito a Amparo.
A lua estava em quarto minguante, o céu limpido e de um azul escuro carregado onde as estrellas brilham de uma maneira extraordinaria.
A brisa nocturna roubava a essencia perfumada das flôres, e, sempre prodiga, espargia pelo ambiente como se tivesse envergonhado d'aquella usurpação.
N'um relogio de torre soou a meia-noite.