Ernesto encerrou-se no atelier. Era preciso ganhar o tempo perdido; era preciso acabar o seu quadro quanto antes e regressar a Hespanha e sobretudo era indispensavel fazer uma obra-prima que cobrisse o auctor de gloria, que fosse falada em todo o mundo, e que Amparo se sentisse orgulhosa. Mas ai! o pobre artista tinha a imaginação demasiadamente occupada, a alma pouco socegada para conseguir o seu fim.
Comtudo, fez esforços heroicos, trabalhava emquanto{52} tinha luz, e durante as noites, fechado no quarto, passava longas horas, escrevendo as impressões da sua alma no meio da soledade em que vivia.
—Ámanhã, quando nos tornarmos a reunir, pensava elle, entregar-lhe-hei estas folhas de papel em que diariamente escrevo os meus pensamentos, e ella verá que a não esqueci nem um só instante, que a continuo amando como nunca.
Ernesto pintára um pequeno quadro, representando a scena do caramanchão, no momento de dar e receber o beijo de Amparo. Os dois jovens, docemente abraçados, estavam illuminados pela debil luz da lua.
O grupo era encantador; respirava amor, ternura, poesia.
Era aquelle quadro uma grata recordação que a sua alma sensivel transportára á téla.
Em volta do quadro collocou a fita que lhe dera Amparo.
Durante a noite, Ernesto passava ás vezes um quarto de hora contemplando o pequeno quadro, pendurado n'uma parede do seu quarto.
Depois pegava na penna e escrevia. Isto consolava-o.
O pintor acabou por fim o seu quadro e convidou para almoçar alguns amigos para que vissem a sua obra e dessem a sua opinião.