Depois de ajustar e ao entregar o dinheiro, disse Daniel:
—São os artistas tão pouco agarrados ao dinheiro!... E comtudo, o dinheiro é a alma da vida. Com que então vae para Madrid?
—Sim, senhor. Ámanhã saio de Roma.
—No museu de Madrid ha quadros de muito merito, como tambem em varias egrejas; e se o senhor fosse um homem de palavra...
Ernesto sorriu-se.
—Se eu não soubesse o quanto me aprecia, respondeu, quasi teria direito a offender-me com as suas palavras.
O senhor Daniel que nunca abandonava a caixa de rapé, tomou uma pitada com gravidade, e disse:
—Em Madrid existem preciosos originaes dos melhores auctores. Temos ahi sobretudo os da escola hespanhola, e se quizesse tirar-me algumas copias feitas com consciencia, não teria inconveniente em ficar com ellas.
—Isso depende do trabalho que tiver na minha patria.
—Será pouco. Em Hespanha não ha costume de proteger as artes. A politica, os touros e a bolsa absorvem a attenção dos hespanhoes. As artes e a agricultura encontram-se em completo abandono. Para ser artista em Hespanha, precisa ter a força de vontade de Aristoteles, a paciencia de Job, e o estomago privilegiado dos arabes; e para ser agricultor a resignação de Santo Isidro, com a desvantagem de que no tempo d'aquelle santo, os anjos desciam á terra e lavravam para que o santo dormisse, e hoje os anjos não lavram. Mas, emfim, o senhor pensará{54} o que lhe convém e n'esse sentido me escreverá indicando-me os tamanhos e o preço por que m'os vende.