Ernesto comprehendendo que o judeu tinha razão, não o contradisse, porque sabido é que sendo Hespanha um paiz agricola, não tem outra protecção senão a da Providencia. Quando chove muito succede como no Egypto, têem boa colheita. Quando chove pouco, os pobres lavradores pagam o mesmo ao protector governo que não se occupa d'elles e morrem de fome; mas isso pouco importa, comtanto que se receba a contribuição, porque n'essa desgraçada nação chegou a ser impossivel encontrar-se um governo bom e barato.

Resumindo: Ernesto partiu de Roma, no dia seguinte, levando no quadro uma esperança de gloria; no beijo que abrazara a sua alma uma esperança de amor.

Tres mezes tinham decorrido desde o dia em que se separou de Amparo. Durante este tempo, nem uma só carta recebêra.

Ernesto levava, sem saber porquê, a tristeza na alma. Ha presentimentos que perseguem o homem com a tenacidade da sombra. O conde de Loreto fôra para Ernesto, desde o primeiro dia, uma ave de mau agouro.

Deixemol-o viajar até Hespanha, e encontremo-nos novamente com a formosa Amparo.

O coração da mulher é insondavel; não se póde definir, porque é vario e caprichoso como a mesma natureza. Por isso Amparo, que indubitavelmente sahiu de Florença enamorada do pintor, chegou a Paris pensando muito no seu companheiro de viagem, o joven conde de Loreto.

Vejamos o que succedeu.{55}

[CAPITULO IX]

De Florença a Paris

Fernando del Villar, conde de Loreto, depois de cumprimentar respeitosamente com um movimento de cabeça os seus companheiros de viagem, accomodou-se do melhor modo possivel no canto, e pôz-se a lêr. Em frente d'elle, grave e immovel como El banquero de Cera, de Paulo Féval, estava o velho mordomo. D. Ventura pensou que com uns companheiros tão graves se iria aborrecer extraordinariamente, mas restando-lhe a consolação de lêr até que se apresentasse melhor occasião, tirou o Guia que lhe offerecêra Ernesto.