Amparo, alguma cousa preoccupada com a recente despedida do homem a quem julgava amar, fechou languidamente os olhos e entregou-se a essa doce vida das recordações em que o passado é o presente da imaginação.

Durante a primeira hora tudo se passou da fórma por que acabamos de descrever. Depois, como se prolongasse o silencio, Amparo, olhava dissimuladamente o joven aristocrata que tão embebido estava na leitura.

O conde de Loreto era um d'esses homens a quem as mulheres não podem olhar impunemente, porque o seu rosto pallido e formoso, a triste expressão do seu semblante, convida o bello sexo a fazer esses terriveis commentarios que lhe são tão peculiares.

Porque seria que sendo o conde de Loreto immensamente rico, estava tão triste? Isto pensou Amparo. E vendo atravéz aquella melancholia impropria da juventude, uma historia interessante, teve empenho em conhecel-a.{56}

Desde aquelle momento a felicidade de Ernesto estava ameaçada da morte.

D. Ventura, que tinha passado a maior parte da sua juventude atraz de um balcão, com os olhos alegres, o sorriso nos labios, a lingua disposta a entabolar conversação com os freguezes, aborrecia-se extraordinariamente no meio d'aquelle silencio enfadonho e do ruido da trepidação que a machina transmitte aos vagons.

Não podendo supportar aquella situação por mais tempo, deixou o livro e dispôz-se a falar com a filha, pensando que talvez assim conseguisse interessar o conde na conversa.

—Olha, Amparo, que delicioso panorama apresenta essa povoação collocada assim na falda d'esse monte, exclamou Ventura. Oh! decididamente a Italia é um paiz encantador.

—Que povo é este? perguntou Amparo.

—Diabo! É difficil de t'o dizer porque me esqueci de comprar o Guia dos Caminhos de Ferro.