—Tive o prazer de ouvir esta senhora tocar piano algumas noites; toca admiravelmente.

—E o senhor conde, segundo me disse minha filha, toca muito bem orgão.

Amparo se pudesse teria tapado a bôcca a seu pae. Mas já dissémos que D. Ventura tinha muita vontade de falar, e sobretudo fazer-se amigo do conde.

—Ah! incommodei com o meu orgão algumas noites esta senhora?

—Pelo contrario, pelo contrario, senhor conde; ouvimol-o com muito prazer. Abriamos as janellas para o ouvir melhor, ajuntou D. Ventura.

—O orgão, disse Amparo, tomando parte na conversa, receando sem duvida que seu pae commettesse alguma imprudencia, é um dos instrumentos que, quando bem tocado, expressa melhor o sentimento da musica.

—Sim, minha senhora, quando seja bem tocado, accrescentou o conde, deixando assomar aos labios um sorriso imperceptivel: mas, desgraçadamente, não succede isso commigo; toco por curiosidade, e nada mais. Apaixonado pela musica até ao exaggero dedico-lhe alguns momentos d'ocio. Admiro os grandes mestres, mas em mim a musica, como em tantos outros, não é mais do que um adorno, uma parte da educação. Toco, é verdade, mas toco muito mal, o que é o peior.

D. Ventura estava encantado com a singeleza e naturalidade com que se expressava o conde.

—Quizera, comtudo, disse o pae de Amparo, saber tanto como o senhor.

—Saberia muito pouco, meu amigo; sobretudo, na Italia que estamos atravessando, onde todos são musicos.