—Diabo! Não sei para que se expõe a vida assim com tanta facilidade. Eu tive pelo menos, cincoenta mil questões, e nunca tive necessidade de me bater com pessoa alguma. Para que temos os tribunaes, se{73} fazemos justiça por nossas mãos? E demais, o que deu origem ao duello, valeria a pena?
—Não sei detalhes; só me disse que se ia bater; mas ia apostar em como o meu amo o não provocou, pois que o conde é incapaz de offender alguem. Oh! se o seu adversario o matasse era uma desgraça.
—Era, era! Mas tenho esperança em que não será assim. Ora o diabo do rapaz!...
E como o mordomo continuasse gemendo e suspirando, D. Ventura pôz-se a passear pelo quarto.
Assim se passou meia hora. Nenhum dos dois falava. D. Ventura pensou, por fim, que seria mais conveniente esperar o resultado no seu quarto do que junto do mordomo, cuja dôr o affligia duplamente.
—E a que horas saberemos o resultado? perguntou D. Ventura.
—Creio que ás nove, pouco mais ou menos.
—E são só oito! Mas, não se poderia dar parte ás auctoridades para evitar o duello?
—Se tal fizessemos, o senhor conde nunca nos perdoaria.
—Diz bem; não ha outro remedio senão esperar e conformarmo-nos com a sorte. Ora o diabo do rapaz! Vou vêr se a minha filha já se levantou, e peço-lhe que tão depressa saiba alguma cousa me avise.