—Senhor D. Ventura, quando por uma d'essas nescias exigencias de decoro se batem dois homens e um d'elles morre no que chamamos campo da honra, o que sobrevive, o que torna para casa vencedor, traz uma espinha cravada na alma que permanece ahi toda a vida. Indubitavelmente alguma maldição está suspensa sobre a minha cabeça. Tenho má mão para desafios.

E o conde deixou-se cair n'uma cadeira, dando mostras do mais profundo abatimento.

—Conheço, senhor conde, que se deve ter um remorso muito grande em matar um homem, disse D. Ventura, mas, que remedio? Quando se tem em frente um inimigo armado que cubiça a nossa vida temos o dever de disputál-a.

Lord Rutheney pronunciou algumas palavras para tranquillisar o conde que parecia vivamente incommodado.

—Agradeço o interesse que lhes inspirei, disse Fernando; mas ao mesmo tempo, desejava que fizessem o favor de me deixarem só, pois estou fatigado e preciso descançar.

Era evidente que uma grande fadiga do espirito se apoderára do conde e os seus amigos retiraram-se.

D. Ventura entrou no quarto da filha a quem contou tudo quanto se passára, que com esse natural egoismo da mulher se alegrou profundamente ao saber que o conde se tinha sahido bem do lance de honra, visto ella não conhecer o infeliz Heitor morto no desafio, e unirem-na a Fernando relações de amizade que iam tomando o caracter de uma paixão verdadeira.

Entretanto, o conde de Loreto fechava-se no quarto, permanecendo o resto do dia sentado n'uma cadeira. Nem elle mesmo poderia dizer se o somno se assenhoreou d'elle algum momento.

Quando a obscuridade da noite se espalhou por todo o quarto, levantou a cabeça e disse:

—É uma desgraça que já não tem remedio; tenho{76} uma mão fatal. Esta é a quinta vez que causo a morte ao proximo e uma profunda dôr a um pae.