E passando a mão pela fronte, como se quizesse livrar-se dos tristes pensamentos que o preoccupavam, levantou-se e tocou a campainha.
Francisco, o mordomo, tão pallido, tão commovido como o amo, entrou com uma luz na mão.
—Bôas noites, senhor conde, disse deixando a vella sobre uma mesa.
—Bôas noites, Francisco. Já sabes; matei um homem.
—E todavia o senhor tinha-me dito que não mais se bateria ainda que o insultassem.
—É verdade; jurei não me bater, mas para que ninguem duvidasse de que sei defender o meu decoro, não me pude conter, e agora arrependo-me. Ah! se fosse em Hespanha não me tinha batido.
—O remedio que ha, disse Francisco, é esquecer o passado.
—Isso é mais difficil do que parece. Na memoria, como n'uma chapa d'aço, grava o buril do tempo todos os acontecimentos da vida. Só a morte tem o privilegio de os apagar. Mas tu disseste: já não tem remedio. Prepara tudo, que ámanhã sahiremos de Paris. Necessito, pelo menos, afastar-me d'esta terra.
—E para onde vamos, senhor?
—Para Hespanha.