XXVI
A confissão, que eu arrancara a Fanny, devia fazel-a soffrer tanto como a mim. Ella, porém, tão pouco se individualisava na offensa, que, desde esse dia, em que eu lhe patenteei as minhas dôres, todas as suas escondeu de mim, e risos me trouxe sempre, como a convidar-me graciosamente a dominar os impetos do meu carater. Pobre mulher, que vinha visitar-me por tempo horrivel, e a sua mais instante preoccupação devia ser o urdir mentiras que legitimassem a sua ausencia de duas horas em cada semana. Apesar d'isso, resistia aos aguaceiros da primavera, como ás nevadas do inverno. Nem mesmo fallava dos incommodos que precisamente devia soffrer para arrancar algumas horas de liberdade ás estreitesas da escravidão da familia. Ria gentilmente dos seus vestidos molhados, despindo a muito custo as luvas, ageitando os cabellos desanelados, e chegando ao fogo a biqueira das botinhas fumegantes. Tinha como brio de se vêr em minha casa depois de haver-se exposto a perigos tamanhos, feliz por a não terem encontrado, contente porque me via menos triste. O vencer obstaculos, a conservação do segredo, manter a estima da sociedade, o cuidar do meu repouso, tudo isso não a deixava sentir o cansaço. Não ha felicidade perfeita—dizia-me{48} ella enternecidamente com um suspiro—ambos pagamos á tristeza o tributo do nosso amor; mas este amor é tão bom que o tributo que a tristeza recebe não me parece uzurario.
Nunca suggeria discussões; nunca foi a primeira a fallar-me dos seus deveres, que muito apreciava, e dos quaes me sacrificara a melhor parte. Com seu maravilhoso instincto de mulher, adivinhava que não podia fallar-me de seus deveres sem me irritar o orgulho, e ella respeitava o meu orgulho, como cauza de soffrimento, quando mesmo o feria. Nunca pude surprehender-lhe sombra de remorsos. Mas têl-os-ia ella?...
Quando eu estava sósinho, pensava assim:—Que cautellas terá ella tomado para dissimular este amor? que invenções! que calculos! que ardis! para se furtar a discussões sobre as suas sahidas! Quantas concessões para não ser descoberta! E tanto que arrisca! Pobre mulher! Tanto tem que perder! E eu tão pouco! Ah! que mau homem sou em atormental-a!
Tratava-me ella por creança, e, com franqueza, eu o merecia bem. Quantas coisas eu sabia do seu viver que ella me occultava, com medo de penalisar-me!
Eu não queria comprehender nunca que havia dias em que lhe era completamente impossivel sahir, e a mais banal visita era bastante a retêl-a em casa. Desconfiava então de abominaveis calculos. Affirmava que ella me mentira. Cuidava que procedia a falta de excitações e fadigas na partilha que ella devia detestar. Odiava-a.{49}
«Fases-me piedade! dizia ella quando eu lhe deixava vêr os horrores do meu infermo espirito.
Todavia, algumas vezes, meio esquecido de minhas magoas pessoaes, para entrar ás profundezas da consciencia, dizia em mim: «Quando a tenho torturado bastante, quando ella d'aqui sae chorando, attribulada, golpeada no coração, perguntando-se se me tornará a vêr em sua vida, que fará ella na rua para disfarçar o tormento que a aperta, e mascarar o rosto com o gesto de habitual tranquilidade, para volver á mulher risonha que eu conheço? Será á custa de carinhos que ella affasta as suspeitas de um marido difficil de enganar? Ah! que lagrimas ella deve chorar com seus filhos! São tantos os esforços dolorosos que elles lhe custam!
E como sei bem que elles adivinham o segredo das lagrimas d'ella! E quão certo é que, semelhantes á mãe, tão bons, tão discretos, com suas mãosinhas lhe enchugam os prantos, sem lh'os trahirem.
Fanny soffria horrivelmente. Via-se-lhe o amarellecer da tristeza.