Eu, sem lh'o dizer, observava o circulo negro que marmoreava a circumferencia de seus olhos elanguecidos, e lhe dava ao olhar estranha expressão de piedade.
Via-lhe contrahidos os labios; e as rugas que subiam da fronte perderem-se sob os cabellos sedosos como symbolos visiveis de dolorosos pensamentos. Consternava-me este ar de desleixo que a definhava.
Diante de mim sómente ella affrouxava a rigidez{50} do seu porte, e eu da melhor vontade lh'o perdoava: devia estar cansadissima de representar de senhora feliz!
Quem lhe dera a ella poder tudo confessar, e viver francamente commigo, sem ignominia!
«Não me deixes—dizia-me ella por vezes—Tu es-me necessario como a luz!»
E outras vezes accrescentava:
«O que me prova que eu te amo, é que eu amo tudo que é teu, o teu dôce egoismo até, até a tua colera, mesmo as tuas sublimes injustiças!
Depois, ficava subitamente callada, como se algum funebre pensamento, que não ousava confessar, a angustiasse sem desabafo.
Eu observava-a, e ella sacudia a cabeça. Depois, retorcendo os dedos, exclamava:
«Trahir! trahir sempre! Eis aqui o horror que tudo me invenena, mesmo a idea da minha felicidade. Eu sou a mais miseravel das creaturas. Deus negou-me força, e, por toda a vida, cumprirei a sentença da minha fraqueza. Tenho vivido sempre diversamente da vida que quizera ter; tenho visto sempre ao pé de mim o que eu quizera fazer. Trahir! meu Deus! como eu me detesto!