XXXIV
«Uma mulher que se aliena—disse-me ella, uma vez, sem nexo que explicasse o improviso, e olhando-me com ar piedoso—Uma mulher, que se aliena, não pode amar sem tornar o seu amante o mais desgraçado dos homens. Quanto mais me examino, Roger, mais conheço que, fartes vezes, com desgosto meu, te devo fazer soffrer muito.
Commovido por este exordio, respondi balbuciante:
—E, todavia, a nossa alliança podia ser ditosa.
«Sim—disse ella amargurada—O que ha de mais entre nós é o amor.
O castigo secreto d'esta ligação é isso. Estas relações só duram com a condição de serem banaes; e, se o são, devem repugnar a corações nobres e delicados; se são profundas e intimas, tornam-se o supplicio de quem as sente.
E suspirou. Respondi assim:
—Vou mais longe que tu, Fanny.
Um amante, ainda mesmo que o seu amor seja mero capricho, deve soffrer com uma partilha que offende os sentimentos humanos todos. O amor proprio, por igual com o amor, tem seus ciumes, seu pudor, suas torturas. Uma amante, qualquer{66} que seja o seu theor d'amar, conhece sempre a existencia do marido. O marido, por via de regra mais feliz, não conhece a existencia do amante.
«Isso é ir longe de mais—disse ella a meia voz; depois, alçando os hombros, poz os olhos no céo, e exclamou:—Que é o amor proprio, Deus meu?