«Que faria elle?» murmurei. Fanny, levou as mãos á face, e respondeu com voz abafada:
—Talvez me perdoasse...—
E, passados os soluços que lhe embargavam a voz, disse:
—Estamos demasiadamente castigados! Se obedeço ao dever, abandonando-te; se não lhe obedeço, deshonro-me. De ambos os lados só vejo a desgraça, e faço desgraçados. Infeliz por ti, por elle, por meus filhos, por mim propria, nem me resta o recurso da morte para restituir a paz a todos! Deus meu, que me has dado o coração, que me não serve para consolar os entes que amo, e nem as suas dôres posso incerrar n'elle, como thesouros caros!
E, a luz crepuscular na alcôva, sobre as rendas dos flacidos travesseiros, enlaçados os braços e unidas as faces assim choravamos... Quem acreditaria que, desde muitos dias, se passavam assim todas as nossas entrevistas!
XXXVIII
Desde este dia funesto entendi que não devia esperar mais nada d'este amor, e vivemos na penosa{78} espectativa da decisão de um outro. Mas, como se o destino houvesse resolvido não dos poupar em dôr alguma, a solução todos os dias esperada, não chegava nunca.
Já as cartas não eram sómente assustadoras para Fanny. Era eu que as desejava, e inquiria o contheudo dellas, e fazia ferventes votos pelo bom exito d'aquelle que, máo grado meu, não luctava energicamente. Com tudo por dar alguma coragem á desgraçada mulher, exaggerava a minha confiança, e encomiava a esperteza conhecida, a firmeza de caracter e a força de vontade de seu marido. Affirmava-lhe que elle ressarciria os seus haveres, obteria justiça, e recobraria o tão merecido socego. N'elle se estribavam todas as minha esperanças: pensava n'elle só, e tomava apaixonadamente a peito a sua pendencia. A menos esperada ventura que eu entrevia em meus vagos sonhos e almejava com o ardor da desesperação, era a volta do meu rival, em cujos braços devia cahir a mulher que eu adorava!
Se eu podesse coadjuval-o!... dizia eu commigo; mas de que sirvo eu? E agora me pezava o inepto pudor que me não deixava entrar n'aquella caza—Se eu tivesse menos orgulho, se eu não tivesse querido exaltar-me, singularisando-me por uma delicadeza affectada, que, dos meus proprios olhos, me não lava da minha acção; se, como fazem tantos nas minhas circumstancias, eu me fizesse amigo do homem, cuja mulher roubava, resgatando hoje a pequena parte remissivel de meus actos, poderia achar algum lenitivo para esta afflicção. Mas eu tivera{79} sempre mais orgulho que bom senso. Pungia-me, então, a idéa de que, por falta minha, n'aquelle desastre em que cada qual heroicamente desempenhava o seu dever, estava eu sendo um ente inutil. Contrapondo á minha consciencia taes subtilezas, tão futeis ellas eram, que não me illudiam. Mas, á maneira do naufrago que se agarra aos limos fluctuantes, sem esperar salvar-se, eu me escorava á minha propria dôr, accuzando-me de faltas não commettidas, falsificando meu proceder e sentimentos n'isso mesmo que elles tinham de honra, por que eu não sabia que fazer para readquirir uns longes de esperança.