Fanny visitava-me como visitamos um doente incuravel, e retiramos sempre admirados de encontral-o vivo. Palavras de alento não as tinha para m'as dizer, que não carecia menos ella de ser consolada. Se eram boas as noticias, suspirava; se eram más, chorava. Como ella, um dia desenvolvesse em toda a sua horrivel extensão, a pesada cadeia das mais secretas miserias que entrevia—atterrada por se não sentir com forças para arrastal-a—eu rompi o silencio subitamente, e, com simplicidade, lhe offereci todos os meus teres para desempenhar a{80} honra de seu marido, que, por derradeiro ludibrio, fôra entregue aos azares do jogo.

Mas, a pesar mesmo deste novo desastre sobreposto ao antigo, e tão afflictivo que já fazia esquecer o outro, Fanny foi o que devia ser:

«É desgraçada a nossa situação—me disse ella com severidade extraordinaria—Roger! amo-te agora mais do que nunca; mas não sou livre; por isso mesmo que te adoro, é que tu és o unico homem de quem não posso acceitar nada.

XL

A adversidade cansou. As cartas vinham cada vez mais animadoras, e já não havia questões de honra, nem de miseria, nem se quer da separação que tanto temeramos. Quando muito era só a perda de ametade dos bens que podia preoccupar Fanny. Vieram o socego e os risos para ella; mas eu, como um miseravel que tem duas chagas a pençar, senti immediatamente despertar o ciume, mais ardente que nunca. O marido estava a chegar, e esta vinda, d'antes tão desejada, incutia-me agora invencivel horror. Dezejei-lhe a morte. Tornei-me sombrio, desconfiado, interrogador. Recomeçaram as nossas luctas.{81}

XLI

Nunca me viera a idea de romper com Fanny; mas travados outra vez em guerra, de repente me appareceu, fulgurante como um relampago. E eu senti entrar com ella em meu coração a suave caricia da esperança. Mas esta esperança, ai! não durou mais que um segundo. Máo grado meu, tremulo de horror, dei-me pressa em repulsar a idea do meu resgate.

XLII

Depois de uma discussão em que, mais uma vez, eu expozera aos olhos d'ella as minhas angustias, Fanny veio de moto proprio a devassar d'um pensamento que eu não ousara nunca deixar-lhe vêr.

—Não fui esperta—disse ella. Eu devia fingir-te a minha vida. Por muito improvavel que fosse o que eu te contasse, tu acreditarias tudo, por que iria no acredital-o o teu interesse. Não fui esperta, mas é que eu nunca soube mentir.{82}