Que farei para apasigual-a?—Tal foi a ignobil pergunta que eu me fiz, ao amanhecer do dia seguinte.

Escrevi-lhe uma longa carta tão submissa que não pude revêl-a sem pejo. Rasguei esta carta, comecei outra, mas tão acerba de estylo que devia exasperar quem eu queria commover. Não a conclui, e andei uma hora a passear phreneticamente em todas as direcções no meu quarto. Primeiro tive ideias de rompimento immediato; depois desvaneceram-se. Rebentou em chamas o furor e o ciume; depois apagaram-se. Por fim, comprehendi que o procedimento a que eu quizera impellir Fanny, era um crime, o qual, consumando irremediavelmente a desgraça d'uma familia inteira, devia tornar-nos desgraçados para sempre. Era-me pavoroso pensar que, a ter-me ella attendido, durante a nossa existencia toda, viriam interpor-se entre ella e mim as imagens de seus filhos abandonados.

Mas ao mesmo tempo escasseava-me força para o resgate. Affizera-me ás minhas dôres, e não ousava trocal-as por dôres desconhecidas. É preciso ter sido, como eu fui, o tudo nas ternuras e affeições d'uma mulher, o coração que incessantemente regia os movimentos d'outro coração, para poder{88} comprehender os horrores da solidão que segue um rompimento. Eu delirava de raiva e dôr. Por fim, commovi-me, erguendo os olhos para o retrato de Fanny.

—Que mal me fez ella?—dizia eu. Chorei; e, indeciso, vesti-me, e sahi.

XLVI

Seriam oito horas. O calor dos ultimos dias d'agosto purpureava o céo carregado. As trevas, semelhantes a mortalhas espargidas, desciam com a nevoa opaca atravez das arvores da grande avenida dos campos-Elyseos. Os passageiros davam-se pressa para fugir á tempestade que trovejava surdamente ao longe. As estrellas brilhantes das lanternas, aqui e além, corriam, cruzavam-se e desappareciam. Nuvens de pó sacudido pelo vento subiam diante de mim e toldavam o espaço. A meio-caminho, quasi entre Rond-Point e o «Arco do triumpho» parei.

Era alli. Encostei-me a um tronco de arvore, levantei o rosto, e olhei. A meus pés era a passagem das carruagens que vão do portal á avenida. Sobre a porta estavam abertas as quatro janellas da sala. Uma só lampada, por certo, illuminava o recinto, por que a claridade que translusia dos vidros{89} escassamente brilhava como um clarão duvidoso. Nenhuma sombra passava entre a lampada e os vidros. A casa está vasia—pensei eu—e todavia Fanny não está em Chaville por que a sala tem luzes.

Estalou, neste momento, mais forte a trovoada.

Relampaguearam os coriscos. Um bulcão rugiu na ramagem dos alamos da avenida, remoinhando turbilhões de folhas e terra. Então vi uma sombra de homem chegar á ultima janella, e fechal-a. As outras tres fecharam-as mais tarde. Depois, a froixa claridade que alumiava a sala bateu nas vidraças mais tensa e viva: havia-se accendido uma segunda lampada.

E depois, mais nada. A avenida deserta, a tempestade no céo de todo negro, eu em pé debaixo da minha arvore, e a sala vasia com as quatro janellas lusentes. Soaram onze horas no relogio d'uma egreja visinha.