De repente, o estrepito de rodas acceleradas, mordendo a areia, passou ao pé de mim. Eu dera, sem saber porque, alguns passos authomaticos.

—Arreda! Arreda! gritou uma voz irritada. Saltei para a margem da estrada. Um coupé vasio passou bamboando sobre o eixo, effeito dos sacões; depois uma grande carroça de viagem tirada por quatro cavallos, voltou de repente sobre si mesmo, ao tempo que se abriam os dois batentes da porta-cocheira. Remirei a carroça com assombro. Ao fundo estava um homem, que eu bem conheci—era elle. Ao seu lado uma mulher que lhe fallava: era Fanny. Entre elles, sobre os joelhos, e nos braços,{90} tres meninos de cabellos louros. Foi uma visão rapida. Não sei se me viram. A carroça desappareceu por debaixo do arco do portal, e logo os dois pezados batentes rodaram nos gonzos, e bateram entre si com estrondo lugubre e cavernoso.

Acabava eu pois de me arredar para dar passagem ao meu rival que entrava como senhor em sua casa.

XLVII

Por que me não esmagou elle com as suas rodas?—exclamei, com a morte na alma, retirando-me, e caminhando ao acaso como um ebrio.

Passava uma sege de praça; entrei—onde quer ir?—diz o boleeiro, embrulhando-se no seu capote—onde quizeres, ao Bosque, onde quizeres. E senti-me arrebatado d'aquelle sitio funesto.

A chuva escorria sobre as vidraças corridas. Encolhido n'um angulo da sege, com os braços cruzados, e a face encostada á almofada, vi de lado, ao clarão dos relampagos, estorcerem-se as arvores atormentadas pelos furacões. A intervallos, resalteavam no ar as astilhas dos coriscos. E eu dizia: Esta tormenta não os aterrará? Não sei que tempo passei blasphemando, rasgando o peito com as unhas, chorando, dentro dessa sege que corria atravez{91} das arvores do bosque, ao clarão avermelhado dos relampagos. Sentia-me abafar. Desci os vidros e a chuva batia-me na cara e nas mãos. Encostei-me ao rebordo da portinhola, com a face deitada nos braços. Tomou-me uma sensação horrivel de frio. Tinha febre. «Quer que recolhamos?» dizia de espaço a espaço o boleeiro cançado.

—Quero—disse eu, fatigado já tambem.

XLVIII

Nascia a aurora lagrimosa no mal enchoto céo, quando, erguendo a face, reconheci uma casa á margem da estrada. Era a della. Todas as portadas da janella estavam fechadas, e as luzes extinctas. Apenas um clarão avermelhado excessivamente mortiço, semelhante ao que sahe d'uma lamparina, brilhava como um ponto entre duas taboinhas de persiana, na ultima janella da direita, em uma alcova lateral ao salão. Debrucei-me longo tempo sobre o apoio da portinhola para enxergar o ponto vermelho e expirante. Mas não chorava já. Ia tranquillo, de gelo, prostrado de fadiga.—Dormirá ella agora?—me dizia eu.{92}