Algumas vezes, com tudo, suscitavam-se ligeiras discussões, remeniscencias attenuadas de antigas discordias. Fanny, porém, tomando-me, a rir, pelo que eu era, uma creança, ou fazia que me não intendia,{116} ou, sacudindo-me o braço em ar de gracejo, dizia:
—Ora vamos, não se falla aqui do que já lá vae.
Todos os lados accessiveis da minha vida ia-os ella penetrando cada vez mais. Como queria tudo saber, imperiosamente se senhoreava de tudo, passado, presente, e dispunha de tudo, a bel-prazer do futuro. Eu pensava em tudo como ella. Se me dava conselhos eu seguia-os como ordens. Em minha casa era ella que dirigia tudo. Os moveis como que se moviam espontaneamente para se collocarem nos logares designados por ella; os quadros entravam n'outras molduras; os espelhos inclinavam-se á vontade d'ella para lhe espelharem por toda a parte a imagem. Era-me prazer grande o vêl-a assim dispôr do que era meu. A minha casa, tornada sua, parecia afeminada. Já lá se não viam por sobre as mezas esporas, chicotes, caixas de charutos; nem junto das paredes tropheus de armas quarteadas; mas, em logar d'isto, estavam bocetas de flôres, alvissimas caças rojando sobre os tapetes, mobilia colorida a lacca e incrustações de Boule, e caixas de perfumarias. Levantavam-se do tapete agulhas e fios de seda e lã: no rebordo da chaminé brilhavam o dedal e as thesouras.
Foram, no drama da nossa vida, esses seis mezes uma especie de entre-acto. Nada nos faltava para a felicidade, excepto a confiança. Fanny estava sempre sobre-rolda receando ataque improviso, e eu conservava no coração um certo azedume. Não havia consolar-me de não ter podido vencer os escrupulos da mulher que eu tanto amava.{117}
Cheguei á fraqueza piegas de pedir-lhe conselhos para a direcção dos meus bens. Fanny não entendia nada de negocios, mas dava aproveitaveis pareceres, porque eram sempre dictados por um espirito de desconfiança feminil. Pois não a consultava eu até em compras de cavallos? No tocante ao vestir era ella quem decidia soberanamente dos feitios e das côres. Arranjava a minha roupa branca, a rir, erguida em pontas dos pés para chegar aos lotes dos armarios, e intromettia-lhe bolsinhas odoriferas que trazia comsigo, e nunca pude encontrar n'outra parte. Todos os instantes dos meus dias estavam, em fim, contados. Não dava um passo sem sua approvação; não comprava luvas ou gravatas que ella não elegesse. O numero dos meus amigos fixou-o ella. Desprezei tres, porque tinham nomes que não agradavam a Fanny. Tudo isto me parecia delicioso. Viver sem ella é que eu não podia por mais que fizesse. Estava enfeitiçado.
LX
Mas o meu ciume, esse não estava morto, nem se quer entorpecido: apenas tinha variado um pouco de objecto. Desde que o marido estava auzente, já não podia soffrer por causa de uma partilha que não existia; mas os menores sentimentos que Fanny{118} me deixava adivinhar, inquietavam-me. Afóra os filhos, e a mãe que ella via ás escondidas, eu não lhe consentia amar ninguem. Fanny sorria, encolhendo os hombros. D'este modo nos tyrannisavamos mutuamente.
Um dia, quando eu lhe tirava o «corpete», uma carta grande e quadrada—lhe fôra entregue quando saía de sua casa—escorregou-lhe do peito e caiu aos meus pés. Levantei-a. Tinha o sêllo de Londres. Encarei Fanny, que, pallida, estendia a mão tremula a tomal-a.
«Teu marido escreve-te?» disse-lhe eu, entregando-lh'a.
—Que pergunta!—disse ella.