—Que lhe escreves tu que não queres que eu saiba? Juraste matar-me? Falla, se tens na alma sombra de piedade! Torturas-me barbaramente como um algoz!

Fanny ergueu-se, pegou-me da mão e disse brandamente:

—Roger, eu não queria magoar-te.

—Pois que! que mais querias tu fazer-me? Vae! Tu és mulher de duas caras; eu nunca fui amado por ti!

A esta phrase injusta, lançou-se-me ao pescoço, abafando-me com beijos as palavras. Eu continuei:{121}

«Como podiam magoar-me as tuas cartas, se, depois d'essa horrivel contestação, ficaste despeitada com teu marido?

—Sê rasoavel: uma mulher póde ficar despeitada com seu marido?

«Pois que?—exclamei furtando-me aos braços d'ella—tu perdoaste-lhe?

—Rigorosamente não—disse ella, sentando-se quebrantada—mas foi-me preciso acceitar as suas desculpas. D'esta vez, ainda assim, está tu certo que não esquecerei mais os ultrages passados.

«Perdoaste-lhe! perdoaste-lhe, Fanny!—Bradei, de pé em frente della, que olhava para mim assombrada—Não tens, pois, dignidade alguma? Não te sentes das injurias? És assim vil? Amal-o? Mentiste-me, pois, a mim? Ah! isto é que eu não acreditaria nunca!