Estava eu sentado n'uma poltrona, ao pé da minha janella, com os olhos fechados, repassando no animo o que eu diria á prejura, quando senti apertarem-me a mão, e misturarem-se n'ella os beijos com as lagrimas. Abri os olhos. A meus pés, de joelhos, livida, mas formosa ainda, formosissima, estava Fanny, olhando-me com eloquente ternura. Senti o perfume d'ella. Nada diziamos. Eu sei que chorava.
Fanny ergueu-se, abraçou-me maternalmente a fronte e os cabellos, com os seus dois braços nús. Não resisti, porque me era aprazivel receber aquellas caricias, a que eu tinha direito, em quanto não fallasse. E por isso mesmo é que não fallava. Finalmente, como eu chorava sempre e a não abraçava, Fanny disse:
—Foi-se o teu amor, Roger?
—Ainda não—respondi, tapando o rosto com as mãos. Ella não intendeu, e deteve-se em pé e agitada defronte de mim.
—Fanny, diz-me que é um sonho, ou que estou doido. Diz-me que não devo odiar-te, porque este odio dilacera-me.
Não córou. Não impallideceu. Pura como a chamma, e crendo-se talvez ella mesmo pura, amimou-me internecida, com apparencias de admirada.
Foi então que eu, reunindo as minhas forças todas,{147} a tomei pela cintura gentil em meus braços, e a fiz sentar defronte de mim. E disse-lhe:
—Sei tudo.
«O que? tu que sabes?
—Vi tudo.