«Mas que?
—Porque me trahiste? Tu não cedeste, porque foste tu quem o procurou, não foi elle a ti. Foste tu, que trocando despejadamente o papel, o seduziste a elle.
Fanny não perdeu ainda a côr, e quiz fallar. Eu, porém, com os olhos cravados n'ella, sem cólera, e frio como o aço, continuei:
—É necessario dizer-te tudo? Não merecias confiança. Comprei a caza vizinha da tua, em Chaville...
Aqui, impallideceu, e disse:
«E depois?
—Uma noite, horrivel noite!... depois de te espiar em vão quinze dias, arriscando a minha vida, consegui introduzir-me sobre o balcão da tua casa. Não sei que hora era. Ajoelhado por traz da vidraça do quarto de teu marido, pude vêl-o. Como te vejo agora, tudo vi. Estava elle só. Entraste...
«Isso é falso!» exclamou Fanny, mais horrivelmente pallida. Semelhava um cadaver sentado n'uma cadeira defronte de mim.
—Será preciso dizer mais?—accrescentei.—Vestias um chambre de cachemira azul. Trazias os cabellos em desalinho, e o peito nú. Calçavas chinellas de setim. Nús, trazias os braços. Serena como sempre, no momento mesmo em que prejuravas,{148} não amaldiçoaste aquelle que vinhas saciar, por que ha em ti dois corações, para amar dois homens, Fanny, a elle, e a mim.
Fanny sacudiu rapidamente a cabeça, e disse com voz abafada: