—Mentes, quando dizes que cedeste ao dever. Não cedeste senão ao orgulho. Intristecia-te o ser abandonada por esse homem que não amas, e te não ama, e te opprime, e te despreza e insulta. Não cedeste tambem á sêde d'um prazer abominavel? Repito-te que ouvi tudo.
Neste conflicto, encontraram-se os nossos olhos. Fanny fez-se escarlate, quiz fugir, tornou para mim, e cahiu de joelhos, exclamando:
«Se soubesses quanto eu me abomino! Eu queria arrancar o coração deste corpo. O meu coração está puro. Vêr-te, ouvir-te, sentir-te ao meu{151} lado, bastára-me sempre. Por isso mesmo que te amo, é que tu és o unico ente, mais que homem para mim. Tu és neste mundo o meu amor unico. És a minha vida.
—Amas-me!—bradei eu com raiva.—Mas de que modo me amas? Acima de mim, em teu coração tão puro, estão vãs considerações do mundo, razões de sociedade, costumeiras mesquinhas, está teu marido. Não me falles de teus filhos. Que amor é aquelle que não conhece a virtude dos sacrificios? que recua diante de qualquer respeito? que é limitado? que soffre prescripções? que não é uma abnegação absoluta do individuo, de todos os seus pensamentos, e affectos, e deveres e virtudes? Quem se perde pelo ente que ama, e destroe a honra e segurança do seu futuro, e chega, por amor delle, até ao crime, e se tortura a inventar maiores provas ainda, não dá o mais radioso testemunho da paixão exclusiva, intolerante, e soberba. Tu nunca soubeste que o amor não vive senão de si, e nada reserva fóra de si. Renegado sublime, piza os mais santos objectos, forte da felicidade que inventa, e que lhe justifica a impassibilidade. Porém, tu! mulher das dedicações mesquinhas, das virtudes pequenas, dos deveres timidos, chamas loucura a tudo isto. É alto de mais para ti! a tua vista não alcança tanto. O que tens, superior a ti, é a tua casa, é o teu bem-estar, é o luxo que te cerca, é a falsa estima do mundo que tanto se dá de ti como das outras, são as relações banaes, é um complexo de coisas miseraveis. E dizes que me amas! Supportarias tu o abandono da sociedade?{152} Offereci-te tudo que tinha; dar-t'o era a minha felicidade; para ti roubaria eu os indigentes. Ainda assim, aceitarias tu o menor incommodo como preço da minha felicidade? Não ultrajes, pois, o amor, a paixão soberanna, que não quer ouvir em redor do seu throno, uma voz que não seja a sua. Crês que amas por te haveres entregado? Vai, já te disse que vi tudo. Estavas com elle como commigo. Custou-te tanto a passar dos meus braços para os delle como d'um vestido para outro.
Fanny, ergueu-se desesperada, e quiz partir; mas eu retive-a, atirei-a para o fundo da alcova, e collocando-me diante da porta, com os braços cruzados, exclamei:
—Hasde ouvir tudo!
Faltou-me a expressão. Arquejava de anciedade. As minhas palavras eram gritos. Cerrei os punhos em postura ameaçadora; Fanny olhava-me de revéz com inexpremivel terror. As palavras vieram, depois, impetuosas:
—Eu nunca tive crença em ti. Tanta certeza eu tinha de que me atraiçoavas, que, por minha desgraça, quiz conspurcar o nosso amor. Sabe-o, se nunca o supposeste; sabe que eu, teu adorador, atraiçoei-te com as mais rasteiras mulheres.
Fanny não me acreditava. Attribuia á impotencia do furor o que eu dissera, e fez um gesto de denegação soberba. Máo grado meu, repassado de angustia, fallei n'um tom de voz supplicante, e branda. Toda a minha cólera cahiu sob o pezo da piedade.
—Sabe, pois, murmurei eu com as mãos erguidas,{153} que eu te amava ao mesmo tempo com amor de mãe, de mulher, de creança. Quanta piedade, respeito, e ternura que podem resumir-se em amor no coração, quantas delicias, tocam a divinisação pela maviosidade, todas senti por ti, desde o primeiro dia em que te vi passar com tuas graças, com a tua serena suavidade, com a tua formosura. Sabe que te adorei piedosamente; que só em ti pensava; que eras a minha segunda alma; que me doiam mais teus males que os meus; que, por desvanecer-te do animo uma incerteza, teria dado, risonho, a vida, que eu só amava por que te era aprazivel. Vê que choro. Tudo que era teu, amei: teus filhos, tua mãe, tua casa, teus creados; as irregularidades irritaveis do teu caracter, os teus vestidos, e as tuas rendas. Creio até que o amava a elle, por que, em meu espirito, a tua imagem andava associada á d'elle. Nem minha mãe amei como a ti. Por ti, têl-a-hia abandonado, com tudo que venero. Eras o meu eterno espirito, o meu bem mais caro, a imagem perfeita das coisas puras.