Aquela mulher, que se afastava, graciosa e ligeira, tinha cabelos louros sob um chapéu de veludo preto, e olhos negros sob os cabelos louros.

—Não ouve? repetiu Pedro Toucard, desejo saber o seu nome e morada.

Porém o pintor já ia longe; desprendendo a mão das do velho, lançara-se desesperadamente atrás da sua visão.

Pedro interpretou mal aquela brusca partida; retorceu por muito tempo a sua barba grisalha, e resmoneou com ar pensativo:

—Uma esmola disfarçada... É pena! Agradava-me este rapaz!... Mas com quem diabo se parece ele?...{21}

[IV]

André Sauvain, empurrando vinte pessoas, alcançou e passou adiante do chapéu de veludo preto, voltou-se timidamente, encomendou a sua alma a Deus, e ousou enfim encarar... uma decepção!

Não era ela!

—Venho a dar em doido!... disse consigo ao voltar para casa. Apaixonar-me antes de haver cimentado o meu futuro... é o mesmo que fazer círculos na água com luíses de oiro. Sou porventura um homem, ou não o sou? Sou. Pois bem! esquecerei essa criança loura.

Passou a noite jurando não pensar mais nela, e estorcendo-se sobre as brasas da insónia. Eis a razão por que, na manhã seguinte, quando a senhora Poussignol, porteira de bigode e com os pés da largura de pratos sopeiros, invadiu o atelier no desempenho do seu oficio de servente, achou André empoleirado{22} sobre três cadeiras, espreitando, através do seu postigo envidraçado, uma janela fronteira, que tinha ainda as portas cerradas.