—Deve ser ali, disse ele consigo. Uma gradaria de ferro, delicadamente trabalhado e com portão ao centro, separava da estrada pública os jardins do castelo, permitindo aos transeuntes admirar a alameda, tapetada de verde relva,{146} que se estendia em suave declive até à entrada do edifício, o qual primava pela sua elegante simplicidade. Dois pavilhões simetricamente dispostos de cada lado da grade, pareciam destinados, um para cavalariça, e o outro para habitação do porteiro. Este individuo destacava, no limiar do portão, tomando o fresco e olhando para as moscas.
Era um homem gordo, de rosto jovial e rubicundo, com o pescoço descoberto, ermo de pelos e enrugado como o de uma perua. Usava enormes brincos nas orelhas, e notava-se-lhe numa das faces prodigiosa inchação.
—Mora aqui o senhor Nuavias? perguntou André.
A esta interpelação, o porteiro nada respondeu. Lançou um jacto de saliva negra, fitando André, a quem mediu de alto a baixo. O volume da face direita passou para a esquerda: o inchaço era de tabaco.
—Ao que parece, disse ele, o senhor é o tal pintor?
—Ah! exclamou Sauvain admirado, já estão prevenidos da minha chegada?
O homem obeso assumiu ar malicioso, piscou os olhos, deitou a língua de fora, e entrou num acesso de muda hilaridade, que lhe fazia oscilar o abdómen e retinir os brincos.
—Os artistas são alegres... murmurou ele. Temos muito que rir, se o senhor também entra...{147}
—Se entro!... em quê?
—Na farsa.