André encostou a fronte ao caixilho de uma janela. O dia declinava; espalhava-se pelas avenidas um vapor azulado, e, impelidas pela aragem, as{151} flores dos canteiros balouçavam-se como turíbulos.

André padecia. Aquele recôndito lugar, aquela pacífica habitação, aqueles jovens para ele desconhecidos, que a felicidade ia para sempre reunir, tudo enfim... até a alegria daquele criado burlesco, lhe pesava no coração, reabrindo-lhe as feridas que vinha ali buscar... ele, o inconsolável!... àquele retiro festivo? Que figura faria, se o envolvessem na turba indiferente dos convivas descuidosos?

Ao pensar nisto, assaltaram-no os receios, mas... era demasiado tarde. Jacinto surgiu, perfilou-se defronte dele, piscou os olhos, abanou a cabeça, mordeu o lenço para não estoirar de riso, depois conduziu o pintor através de uma enfiada de quartos, empurrou-o para o meio de uma vasta sala, já invadida pelas sombras do crepúsculo, e fugiu.

Ao principio, Sauvain julgou-se só.

Por uma grande porta envidraçada, que abria para o jardim, penetravam livremente os aromas da tarde. Nada se movia; porém André distinguiu, dentro em pouco, a um canto do fogão, que acabava de apagar-se, os contornos indecisos de uma mulher sentada.

—Minha senhora... balbuciou ele, inclinando-se.

Um grito vibrou, como uma nota de cristal.

—André... É André!...

E a forma vaga ergueu-se de súbito. Um último{152} raio de sol, que borboleteava nas vidraças, iluminou um perfil de anjo.

Esse grito, essa voz, essa visão, penetraram no peito de Sauvain, como uma lâmina de oiro. Oscilou e caiu de joelhos.