—É verdade, meu bom amigo. A sorte favorece os doidos. Esse depósito sagrado, pelo qual velou durante doze anos, como homem probo, que é, arrisquei-o eu, sem reflectir, num lance de dados... Ganhei... Sou portanto um grande especulador. Mas... se tivesse perdido?... Quando penso nisso, sobe-me o coração à garganta, e sinto-me tremer como... como o seu Faust au sabbat, André!... um quadro admirável! que, entre parêntesis, possuo em Paris no meu palacete, e pelo qual me ofereceram já o seu peso em oiro?

—De modo que, disse o pintor, o meu mercador de quadros entrava na conspiração?... Traidor!...

—Ora!... e também a modista, para quem fazia flores a menina Rosa, os criados desta casa, e até o pateta do Jacinto, antigo marinheiro, que eu elevei à categoria de guarda-portão, e que hoje tomo a liberdade de recomendar à sua benevolência.

—Oh! quanto a esse, disse Sauvain rindo, é possível{165} que tentassem inicia-lo no segredo, mas assevero-lhe que nada percebeu!

—Nem eu tão pouco, palavra de honra! replicou sinceramente o senhor Germinal, e por isso... meto a viola no saco. Toque nestes ossos, meu genro!

—Com mil vontades! exclamou alegremente o pintor, apertando nas mãos a garra descarnada do pai da sua noiva. Estava escrito que, riqueza, gloria e felicidade, tudo encontraria...

—NAS CINZAS, concluiu Pedro Toucard.

FIM

[[1]] Reunião de três números, cuja extracção simultânea era uma sorte feliz.

[[2]] Hospital de alienados.