Pedro interrompeu-o com gesto suplicante; a sua fisionomia tornara-se grave e sisuda.

—Meu querido amigo, disse ele com voz comovida, permita-me que resgate, a meu modo os erros passados... Talvez devesse te-lo feito mais cedo...{163} Mas, se prolonguei por alguns dias as suas mágoas, se me apresentei em sua casa sob farrapos mentirosos, foi porque ainda não tinha encontrado Rosa, e queria entregar-lha juntamente com o seu património. Dessa experiência, saiu o senhor vitorioso; outro qualquer ter-me-ia morto, porém o senhor... coração nobilíssimo!... para o homem, que lhe despedaçara a vida, teve ainda uma última e sublime esmola!... Pois bem! seja generoso até ao fim... não recuse os meus dons... não me deixe remorsos...

—Cumpra-se o seu desejo, respondeu Sauvain. Aceito este oásis encantador... com a condição, porém, de restituir-lho quando a fortuna o houver atraiçoado.

—Com mil amarras!... Espere por isso! Graças a Deus, estou curado da febre de traficar; viverei como um bom burguês; o meu amigo Germinal ensinar-me-á o gamão; e nunca mais especularei, senão em sonhos.

—Pelo amor de Deus, murmurou o pai de Rosa, expliquem-me de que se trata!... Que diabo está o senhor para aí a falar em erros, remorsos, e património?... Que significa todo esse aranzel?...

—Significa, respondeu o aventureiro, que encontrei no meu caminho duas virtudes raras, e tão raras que me converteram...

—E quais são essas virtudes?...{164}

—O perdão das injúrias, disse Pedro, apertando a mão a André... e a inteira probidade, acrescentou, estendendo a outra ao senhor Germinal.

Este esfregou desesperadamente o seu ferruginoso crânio.

—Tudo isso para mim é hebraico, replicou o pai de Rosa. A única coisa, que pude coligir, foi que o senhor está milionário!...