Neste ponto estacou, exalou um suspiro, esfregou as mãos, o que produziu ruído semelhante ao de um raspador, olhou em volta de si com ar assustado, e pareceu querer fugir. Reconsiderou porém, e continuou, articulando as palavras como se cada silaba lhe fosse arrancada da laringe por um saca-rolhas invisível:

—Senhor... chamo-me Germinal... moro aqui defronte... e venho... na qualidade de vizinho... fazer-lhe uma pequena visita...

André desabou da sua caranguejola com grande estrondo; o senhor Germinal, aterrado, lívido de susto, cingiu-se rapidamente com a parede.

—E esta! rosnou a senhora Poussignol no auge do espanto...{27}

[V]

Se a ferrugem, esse peróxido de ferro hidratado, pudesse tomar forma humana, escolheria, para encarnar, o individuo que André Sauvain tinha diante de si.

O senhor Germinal assemelhava-se a um prego colossal, esquecido durante seis meses em sitio húmido.

Tudo nele estava enferrujado, desde a cadeia donde pendia o seu relógio de caixas de prata, até aos botões do colete. Cor de ferrugem era o seu fato cheio de cerziduras e lustroso, à força de gasto, nos cotovelos, nos joelhos e nas coxas; cor de ferrugem eram as suas suíças sarapintadas, os cabelos raros deixando a descoberto um pedaço de crânio amarelado, a pele salpicada de manchas ruivas, os olhos inquietos orlados de um círculo desbotado como os{28} dos peixes cozidos, os lábios que deixavam entrever as suas gengivas arruinadas, os dentes que nelas encaixavam... e tudo enfim! Enferrujada era também a sua voz, e até se exalava da sua individualidade um tal ou qual cheiro ferruginoso.

Todavia, a despeito da afirmativa da senhora Poussignol, o senhor Germinal não tinha de modo algum a aparência de um ex-bandido. Era um homem tímido, humilde, vítima de um contínuo mal-estar e de uma trepidação nervosa inexplicável, sempre com o ouvido à escuta, e a atenção alerta. Naquele mesmo momento, em que arriscava um passo verdadeiramente fenomenal para o seu carácter, parecia obrar sob a pressão de uma vontade mais forte do que a sua, como um sonâmbulo recalcitrante, que o magnetizador dirige.

E contudo nunca mortal algum, mesmo o mais sedutor, foi acolhido, lisonjeado, afagado por um sorriso semelhante ao que André Sauvain dispensou ao pai da sua... quimera loura.