Pelo que toca à jovem, ignoro em que ela pensou, mas o seu lindo rosto tornou-se da cor do seu nome.

O arranjo de casa do senhor Germinal, não só era totalmente desprovido de magnificência, mas até deixava adivinhar a presença de um mau hóspede, a quem chamam pobreza; contudo a ordem, harmonia e limpeza, que ali reinava, fazia alegrar o coração: cada móvel fora conquistado à custa de laboriosas vitorias, e ostentava-se no seu lugar, polido, espanado e lustroso, como convém a um troféu doméstico.

A noite correu deliciosamente. Houve cidra... e houve castanhas!... Para André houve também certos regalos pouco apreciados pelo vulgo, mas que o pintor saboreou como artista e como poeta: o prazer dos olhos, a embriaguez da alma, o delírio da imaginação... são esses a que me refiro.

Porque... ela estava ali, Rosa, a travessa e meiga criança. Para certificar-se de que não sonhava, Sauvain beliscava os braços de vez em quando; ora, como apesar disso continuava a absorver por todos os poros a suave música da sua voz, as escalas argentinas do seu riso e o fru-fru do seu vestido azul; como a via voejar, qual ave encantadora, ruborizar-se por ser admirada, e sorrir{34} de prazer corando; como, enfim, quando ela inclinava a cabeça, o candeeiro iluminava de reflexos doirados os anéis do seu cabelo, punha em relevo o seu gracioso perfil, sombreado por pestanas de seda; ou lhe transformava o colo em uma lamina de puríssimo marfim, André viu-se obrigado a reconhecer que não dormia.

O senhor Germinal ganhou dezassete partidas de écarté ao seu jovem vizinho... que nem deu por isso!

O pintor não notou também as singulares contracções nervosas do seu parceiro, que estremecia ao menor ruído exterior, empalidecendo ao fechar longínquo do portão do pátio, e saltando na cadeira quando a escada rangia sob a pressão de passos humanos. Bem podia cair um raio sobre a mesa, que André não repararia em tal!

Às onze horas retirou-se este, cambaleando como um ébrio, posto só tivesse aceitado um cálice de cidra; e quando Rosa, à despedida, lhe tocou levemente nas pontas dos dedos, pareceu-lhe que o peito se lhe dilatava até ao infinito, e que dentro dele se abrigava o céu inteiro, límpido, azulado, transparente e todo povoado de pombas de cândida plumagem.

Enquanto a Rosa, depois de André partir, fazendo um colar dos seus braços nevados ao papá Germinal, cobriu-lhe de beijos as faces enferrujadas, e gorjeou-lhe ternamente ao ouvido:{35}

«Muito obrigada, meu bom, meu querido, meu adorado papázinho!»

E, feito isto, voou para o ninho.