O pintor leu o que se segue:

«Aos herdeiros ou parentes do senhor Onésimo Toucard, falecido em 8 de maio de 1872, roga-se com instância, para seu interesse, que se dirijam a M. Germinal, rua dos Mártires, n. 87.»{71}

[XII]

É indispensável agora, para clareza desta narrativa, que volvamos alguns anos atrás.

Em 1842, num esplêndido domingo de primavera, o senhor Germinal, então empregado numa repartição publica, dirigiu-se para o caminho de ferro da margem esquerda, e subiu para o comboio com alegria, difícil de descrever.

Durante toda a semana, o senhor Germinal consultara o barómetro; através da espessa névoa, que embaciava os vidros das janelas, interrogara cem vezes o aspecto do firmamento; cem vezes os seus companheiros de trabalho o haviam surpreendido a olhar fixo para o céu; cem vezes perpetrara erros nas contas; cem vezes, enfim, esboçara na mesa, com a ponta da raspadeira, árvores, campanários, carneiros e choupanas. Tantas distracções num empregado-modelo, atraiçoavam algum projecto, amorosamente{72} acalentado; e, se bem que o senhor Germinal fosse taciturno e pouco comunicativo, todos sabiam qual era esse projecto: ia no próximo domingo a Viroflay.

Nesta época, o senhor Germinal roçava pelos seus quarenta e sete anos, e havia vinte e cinco que vinha, trezentas vezes por ano, assentar-se à mesma hora, na mesma cadeira, à mesma secretária, com as mesmas mangas de lustrina, em frente dos mesmos indivíduos, e recebendo o mesmo ordenado, cujo quantitativo era de cento e trinta e três francos e trinta e três cêntimos.

O senhor Germinal passava, e com razão, entre os seus chefes e colegas, por um homem de medíocre inteligência, mas trabalhador assíduo, de inteira probidade e inflexível honradez. As suas ideias, somadas, ofereceriam por certo um diminuto total, mas eram rectas, firmes e alinhadas, como uma tábua de Pitágoras. Quando à noite se deitava, exausto de fadiga, com os dedos inteiriçados de segurar a pena, e o espírito baralhado de algarismos, não pensava sequer em meter-se nas questões sublimes da politica, religião, moral ou filosofia, que fazem divagar nas alturas o pensamento dos que nada têm que fazer. Limitavam-se os seus esforços de imaginação à saudade de sua falecida mulher, a um impulso de ternura por sua filha, e a um plano de trabalho no dia seguinte; depois, o sono{73} envolvia-o nas suas pesadas dobras e levava-o ao mundo do esquecimento. Nunca um fermento de inveja, nem uma dessas veleidades maldosas, que mancham a consciência, o agitava sequer por um segundo; adormecia puro e acordava inocente.

Aquela existência de ostra pegada ao rochedo, fará compreender o extraordinário alvoroço, que sentia o senhor Germinal com a perspectiva de uma digressão, por mais curta que fosse. Entretanto, era por ele classificado em segundo lugar o gozo material, que o esperava, respirando o ar puro do campo e dilatando a vista pelas colinas vicejantes; o que mais o deleitava era o prazer próximo de beijar sua filha, que tinha então cinco anos, e de apreciar, por intuição própria, os progressos que ela fizera em saúde, estatura e vigor, durante os dezoito meses, em que deixara de a ver.

O senhor Germinal aproveitara dois dias de feriado, na Páscoa, para desposar uma rapariga... um pouco mais pobre do que ele. Era de natureza humilde e tímida, como a dele, mas delicada, fraca e demasiado franzina para resistir ao sopro gelado da miséria. Morreu de parto, deixando-lhe uma filha, com as suas feições, e a quem o empregado pôs o nome de Rosa, em memoria dela.