A criança era débil; a sua vida parecia depender de um sopro. O senhor Germinal procurou e descobriu uma camponesa de Viroflay, moça e robusta,{74} que levou a pequerrucha banhada das lágrimas de seu pai, e prometeu restituir-lha, dentro em pouco, esperta, robusta e traquinas. E com efeito, cumpriu tão bem a sua palavra, que o senhor Germinal, achando-a de dia para dia mais rechonchuda e chilreadora, resolveu deixá-la mais tempo em casa da ama, e mesmo vê-la só de longe em longe, porque a despesa das viagens abria sensível brecha no seu modesto orçamento.

Eis o motivo porque, no dia a que nos referimos, o senhor Germinal se sentia ligeiro como um pássaro. Entreabria-lhe os lábios, cor de ferrugem, um franco sorriso (sorria ainda nessa época...) e o ruído de raspador, produzido pelo esfregar das suas mãos, confundia-se com os silvos da locomotiva. O vento incomodava os seus companheiros de viagem; ele porém acolhia-o com delicias, pensando que aquela mesma brisa teria talvez acariciado os faces de sua filha. Bem que o comboio deslizasse veloz sobre os seus cordões de ferro, acusava-o de lentidão, e vinte vezes olhou para fora, desconfiado de que o horizonte, por pirraça, se afastava dele.

Entretanto ia depressa! e tão depressa, que nenhum dos viajantes se recordava de semelhante celeridade.

As árvores, os prados, as sebes, as colinas, os postes que ladeavam a estrada, fugiam arrebatados num turbilhão infernal... Apareciam e desapareciam{75} antes que se pudesse distinguir-lhes as formas... E a rapidez aumentava, de minuto para minuto... Pouco a pouco, os objectos exteriores confundiram os seus perfis indecisos... era uma confusão extraordinária... um vertiginoso turbilhão... uma miragem louca, análoga à que reflectiria uma onda violentamente agitada...

Dentro do comboio, os passageiros consultavam-se com terror; entrechocavam-se os dentes uns nos outros, os seios arfavam, as mãos uniam-se convulsivas e alagadas de frio suor.

E a velocidade aumentava... aumentava sempre, de segundo para segundo...

Houve um momento solene, um momento longo como um século, um momento durante o qual cada um orou do intimo de alma ao que perscruta as consciências, e pensou nos entes queridos que o prendiam à vida... Depois... um choque espantoso... e um clamor, ainda mais espantoso!... Eram 8 de maio de 1842.

Como escapou o senhor Germinal àquele desastre? Ele mesmo nunca pôde recordar-se.

À mingua da rasto, que o abandonara, o instinto, esse guia cego do animal, conduziu-o intacto a salvamento. Quando deu acordo de si, corria através dos campos, espavorido, ofegante, meio-louco; mas apenas recuperou o espírito, o seu primeiro acto foi voltar atrás e auxiliar os socorros, que de todos os lados acorriam.{76}

Passou-se então um facto, que deixou na sua vida indelével impressão.