Depois, prosseguiu nas suas investigações com ardor febril.

Não levaram essas muito tempo: a carteira não continha papel algum, que pudesse servir de esclarecimento; as folhas, pela maior parte em branco, só forneceram ao senhor Germinal algumas notas de compras e várias despesas, escritas com má caligrafia, umas a lápis, outras a tinta.

O viúvo ficou imerso em profunda perplexidade; reflectiu tanto tempo que os objectos se lhe baralharam diante dos olhos, multiplicando-se confusamente; a final, exausto por tão diversas comoções, arrecadou a carteira no fundo de uma gaveta, cuja chave meteu debaixo do travesseiro, e deitou-se.

Se o sono não chegou, veio em seu lugar o pesadelo; pelas fendas da janela, pelo buraco da fechadura, ou pela chaminé, insinuavam-se ladrões, que esquadrinhavam na gaveta com deplorável afinco.{79}

O senhor Germinal, inundado de suores frios, saltou fora da cama, e em pé, descalço, imóvel no seu traje alvejante, passou o resto da noite a perguntar a si próprio onde poderia ocultar melhor o seu importuno tesouro.

Ao romper do dia, surgiu-lhe uma ideia. Desarrumou a cama, ergueu uma tábua do soalho, e por debaixo dela escavou um esconderijo, assaz engenhoso.

Feito isto, vestiu-se e foi de corrida dar a sua demissão da secretaria, e fazer valer os seus direitos à aposentação.

À secretaria!... Bem lhe importava agora a secretaria! Só cuidava em desencantar a família Toucard, e desembaraçar-se de uma aterradora responsabilidade, em proveito dela.

Outro qualquer julgaria ter feito muito, indo depositar a soma no mais próximo comissariado de polícia, mas o senhor Germinal não era do feitio de outro qualquer; na sua escrupulosa delicadeza, considerava-se como ligado ao morto por um compromisso; tinha sempre presente na memoria aquele rosto contraído, sentia aquela mão fria apertando a sua, ouvia aquela voz agonizante a dizer-lhe:

—Entregue-o pela sua própria mão a...