Mas... a quem? A alma, fugindo, levara a chave do enigma. Fosse a quem fosse: Onésimo dissera «Pela sua própria mão»... e isso era o bastante{80} para o senhor Germinal não se arredar um passo da vontade expressa do moribundo.

Pôs mãos à obra sem tardança. Durante muitos meses, viram-no sair quotidianamente ao romper de alva, para só voltar depois de noite, estafado, moído e de mau humor. Interrogou o Almanaque do comercio, gastou dez pares de botas nas ruas de Paris, fatigou os ecos da prefeitura de polícia, por pouco não pegou de estaca em cada uma das legações estrangeiras, percorreu os arrabaldes, esquadrinhou Versailles e seus subúrbios, revolveu céu e terra, e contudo não descobriu em parte alguma vestígios da passagem ou da morada de Onésimo Toucard.

Ora, enquanto as suas pernas funcionavam ao longe, as notas de banco aboloreciam no buraco, à mercê dos ladrões ou do incêndio; e a pequerrucha, confiada a uma ou outra vizinha obsequiosa, desaprendia de sorrir à máscara ferrugenta de seu pai. Um tal estado de coisas não podia prolongar-se, e o senhor Germinal desistiu enfim das suas correrias infrutíferas; quebrou o mealheiro, no qual, desde que enviuvara, ia juntando, soldo por soldo, os elementos de um dote para sua filha; e com esse dinheiro, deduzido do seu passadio, fez publicar um anuncio nos jornais... depois dois... depois três... depois vinte...

À medida que o tempo decorria, o senhor Germinal tornava-se mais frenético, mais nervoso, mais{81} pusilânime. Os noventa e dois mil francos invadiram-lhe o cérebro, submergindo todos os seus pensamentos. Tiraram-lhe o sono e o apetite absurdos terrores; paralisaram-se-lhe as faculdades morais a ponto de não ousar mais afastar-se de casa, e dispôs as coisas de modo que nada interrompesse o seu cativeiro voluntário. Primeiramente, matriculou Rosa em um colégio próximo, com a condição expressa de a virem buscar todas as manhãs, e trazê-la de tarde. Depois, contratou com uma agência de anúncios para que, até nova ordem, o seu reclame fosse publicado duas vezes por mês. E feito isto, aferrolhou-se dentro de casa e entrou de sentinela.

Ninguém o rendeu do seu posto; e aí adquiriu, pouco a pouco, uma doença singular. Ou fosse porque aquela perpétua expectativa, sempre alerta e sempre frustrada, tivesse enfraquecido as suas faculdades mentais, ou porque o contacto incessante do dinheiro desenvolvesse nele predisposições latentes, começou a manifestar sintomas de avareza. Achou-se muitas vezes, sem saber como, a mergulhar as mãos, trémulas de voluptuosidade, no maço das noventa e duas notas de banco, a amarrotá-las, rindo de prazer ao escutar deliciosamente o seu macio fru-fru... E então, envergonhado de si mesmo, afastava-se de súbito, fazendo votos sinceros pela aparição de um Toucard qualquer.{82}

Sete anos se passaram assim. Rosa tinha doze, e o colégio já a enfastiava. Logo que se instalou definitivamente no domicílio paterno, a sua fisionomia, fresca e louçã, iluminou-se como uma aurora boreal...

Foi uma felicidade para o pobre homem; algum tempo mais de solidão, e a loucura não tardaria. Contudo, a influência daquela criança adorada não tranquilizara o senhor Germinal; apenas imprimiu outra direcção às suas inquietações. Rosa prometia ser extremamente bela, e, de todas as promessas que as mulheres fazem, é essa a única que geralmente costumam cumprir. O viúvo admirava nela as feições queridas da sua defunta; tinha a mesma graça, a mesma afectuosa alegria, a mesma expressão no olhar, mas também a mesma débil constituição. O pobre pai suspirava, vendo-a estragar, em grosseiras ocupações, as suas mãos pequeninas e brancas; empalidecia, observando que o menor trabalho a fatigava.

À força de temer para ela a miséria, acostumou-se gradualmente a desejar-lhe o impossível... isto é, dinheiro. Os seus vagos, instintos de cobiça pelo que diariamente remexia, aumentaram de consistência desde que tiveram um fim nobre e elevado. Chegou um momento em que, contemplando a carteira de Onésimo Toucard, o senhor Germinal dissera consigo:{83}

—Se o não reclamassem!...

Esta ideia, uma vez encaixada no cérebro do senhor Germinal, alastrou-se como uma nódoa de azeite. Tudo poderia obter para Rosa com noventa e dois mil francos: ar, sol, espaço, prazeres e saúde... tudo simultaneamente lhe passou pela imaginação fascinada. Em vão se desculpava para com a sua consciência, murmurando: