[XIV]
Ao centro do quarto, que escondera um tesouro sob o seu pavimento, estavam sentados Pedro Toucard e o senhor Germinal, um em frente do outro, na atitude de duas esfinges que tentassem adivinhar-se.
Ambos estavam pálidos, comovidos e agitados.
Os olhos do provençal luziam como carbúnculos; torcia a barba a ponto de quase lhe arrancar os cabelos.
—Como íamos dizendo, começou ele, os parentes ou herdeiros de Onésimo Toucard foram rogados, com instância, para, a bem de seus interesses, se dirigirem ao senhor... O que, segundo creio, significa que em sua mão existem alguns fundos, os quais devem pertencer àqueles, não é assim?»
O senhor Germinal hesitou. Pensava na sua querida Rosa, na felicidade que lhe prometera e que{87} ia roubar-lhe. Verdade era que podia ainda negar o depósito, e desembaraçar-se de Toucard, mentindo; mas... não se é honrado impunemente!
—Sim, senhor, respondeu com voz sumida.
Pedro Toucard reteve um grito de alegria. Respirou estrepitosamente e aproximou a cadeira.
—Queira continuar, disse ele; sou todo ouvidos.
—É ao senhor que compete falar, replicou o pai de Rosa, analisando tacitamente os andrajos de Pedro, que lhe inspiravam pouca confiança.