—Meu bom amigo, eu sou espertalhão, e conhecedor de fisionomias. Gosto de ler na sua, posto não seja das mais belas... O senhor é teimoso como um burro, mas é o homem mais honrado que tenho conhecido. Isto não ficará assim, palavra de Pedro! Havemos de tornar a ver-nos! Adeus.
Recitado este discurso, enterrou com um murro o chapéu na cabeça, enfiou as notas nos bolsos das suas calças esfarrapadas, e, radiante, com os olhos{94} a cintilar, e a boca entreaberta por um franco sorriso, desceu a escada cantarolando.
O senhor Germinal seguiu-o, um pouco pálido ainda, mas desta vez tranquilo... e quase alegre também!
Havia exactamente doze anos, que o desastre se dera.{95}
[XV]
À ténue sombra do microscópico jardim, através das moitas de liláses, distinguiam-se dois rostos juvenis, que não tinham vontade de rir.
Rosa e André, conchegavam-se um ao outro, como duas aves ao aproximar da tempestade. Lendo o anúncio, tinham quase atinado com a verdade, e as últimas palavras do velho retumbavam ainda aos seus ouvidos.
Entretanto, não bastavam palavras para desarreigar as firmes raízes da esperança, e Rosa encostando a loura cabeça no ombro do seu prometido, tranquilizava-se ouvindo-lhe a voz altiva é varonil repetir:—Amemo-nos, apesar de tudo!
Quando o senhor Germinal passou, precedido do triunfante provençal, envolveu o lindo par num olhar terno e contristado.{96}
—Olhe, disse Pedro parando; ali está o que nos rejuvenesce trinta anos, meu amigo!...