Já nascera o sol; ténue claridade se coava a custo através das nuvens escuras; a chuva caía vertical e em grossas gotas, marulhando no pátio pedregoso e nos canteiros do jardim, que exalavam um odor terroso. Entretanto a casa estava inteiramente tranquila, e as janelas de Rosa, hermeticamente fechadas, não deixavam filtrar o mínimo raio de luz.
O frio da manhã atenuou a sobre-excitação febril de André; tornou a deitar-se, vestido como estava,{108} dizendo consigo... que ninguém já sequestra raparigas; que de certo Rosa tomaria ar de vez em quando; que ele aproveitaria essas ocasiões, mesmo nas barbas do senhor Germinal, e finalmente que era tolo em preocupar-se assim. Com estas reflexões, adormeceu sossegadamente, e tão deveras, que a senhora Poussignol, na sua habitual visita matutina, não logrou despertá-lo inteiramente.
—E esta!
Tal foi a exclamação, que retumbou aos ouvidos de Sauvain. Semi-abriu os olhos e contemplou a porteira, que estava de pé, em frente dele, com o bigode eriçado, com os punhos fincados nas ancas, e firmada nos seus sapatos de ourelo, como um pato nos seus pés espalmados.
—Então, disse ela, não o tinha eu prevenido!...
—De quê?
—De que fazia muito mal em frequentar aquela gente...
—Que gente?
—A família Germinal.
André sentou-se de súbito no canapé.