—Faça favor de falar mais respeitosamente dos meus vizinhos.
—Não lhes falto ao respeito, mas isso não impede que eu volte à minha primeira opinião, de que aquele homem é um antigo criminoso.
—Ainda a mesma tolice!{109}
—Tolice!... A prova é que fugiu, e a polícia vai-lhe no encalço.
—Do senhor Germinal?... Você endoideceu!
—Ah, endoideci!... Pois bem! quando souber o que aconteceu...
—O que foi? Vamos, explique-se! bradou André com impaciência.
—Esta manha, às quatro horas, ainda não era dia claro, bateram nos vidros do meu quarto. Quem é? perguntei eu.—Sou eu, Germinal, responderam. Era já caso para admirar!... pois não era? Um homem que, durante doze anos, não deitou o nariz fora da porta, e que hoje, sem mais nem menos, vai passear antes de luzir o buraco!... Levantei-me, acendi a candeia, e que vejo?... O senhor Germinal, com a mala debaixo de um braço e a filha pelo outro, chorando, a pobrezita, que enternecia um rochedo! Que deseja? perguntei eu. Em resposta, paga-me o mês por inteiro, pespega-me dez francos na mão (primeiro dinheiro dele, a que vejo a cor—sempre é bom saber-se!) participa-me que vai viajar, e não sabe quando voltará; mas que me não inquiete eu pelos móveis, porque brevemente os mandará buscar. Então, a menina Rosa, que continuava a chorar, tentou dizer-me duas palavras em voz baixa, porém o pai levou-a de repelão. Puxei a corda e... boas noites!
André parecia uma estátua.{110}
—Partiu!... partiu!... Rosa partiu!... murmurou ele afinal; é impossível!