Parecendo-lhe nos primeiros tempos uma antecipação do paraiso, tornára-se depois o automatismo de um habito, e liquidára por fim nas repugnancias da obrigação.
Ia todos os dias a creada saber da saude de sua reverendissima e falava-lhe da afflicção da senhora, tão sequiosa das suas bemfeitorias espirituaes.
Mostrava-se elle theatralmente, no seu palco, ao fundo do sanctuario onde se armazenavam as imagens sem capella propria, cujos olhos de vidro brilhavam nas meias tintas do escuro armazem.
Os grandes pés descalços no lagedo, sem habito, a camisa desabotoada, empunhando disciplinas de grossa corda e nós nas pontas, simulava fr. Angelico o soffrimento de terriveis expiações.
Respondia n'uma voz sumida:
—Diga a sua ama a grande penitencia que estou cumprindo, a pão e agua. Que rese por este pobre peccador, para que lhe sejam perdoadas as fraquezas.
Regressou um dia a creada com a nova de que reappareceria o frade chamado do senhor; e D. Perpetua não desamparou o mirante e a varanda, passeando inquieta, aconchegando ao peito o embrulhinho com que faria esquecer ao penitente as visões do inferno.
Mal transpuzéra a porta da saleta, puxou-o para um canto, e meteu-lhe na mão o saquinho de sêda carmezim, onde elle pelo tacto reconhecia as peças de oiro.
—Angelicosinho da minha alma, para que me deixaste, ingrato? Que mal te fez a tua Perpetua?
Elle simulava um terror sagrado: