—Deixa-me, filha, tenho esta alma mais negra que um tição. Já estou a arder nas penas do inferno, sinto o fogo aqui dentro.
E comprimia o estomago, onde as penosas digestões de toucinho e presunto, servido em grandes postas no refeitorio, fermentavam em dolorosas azias, que afogava a bôa aguardente do fidalgo.
—É assim que me pagas os sacrificios que tenho feito por ti? São desculpas como das outras vezes. Nova confessada, descarado. Ha de ser a tal Joaquinina do Ó, de quem me chegaram uns zum-zuns.
Elle erguia o olhar ao tecto, n'um ar compungido:
—Ai filha, que perdeste a minha rica alminha! E não ha remissão para o peccado da carne, de si mesmo mortal, aggravado ainda em cima com o disfarce de coisas de religião.
Forcejava por desprender-se:
—Nunca mais! Acabou-se!
Perpetua agarrou-o na angustia do desamparo. Ia-se com elle o ultimo vislumbre de mocidade, o sonho em que se emancipava da trivialidade do seu viver. Era a morte aquelle rompimento!
N'um desespero articulou surdamente:
—Assim é que se perde a minha alma!