—Estão reunidos nos Biscoitos mil e quinhentos homens, commandados por João Moniz Côrte-Real e Joaquim d'Almeida. Esperam mais gente de outras freguesias, e vão acclamar el-rei na villa da Praia, e facilitar ali o desembarque á esquadra do senhor D. Miguel, que saíu contra a Madeira, e vem agora libertar a nossa terra!

—E a tropa que marchou hontem contra elles?

—Protegeu o Senhor os nossos, e deu lhes logo a victoria. Foram derrotados os dois destacamentos, e ficaram presos os infames soldados liberaes. Que vergonha para esses fanfarrões!

—E que vergonha para mim, fr. Angelico—exclamou o morgado, n'um impeto guerreiro.—Devia estar ao lado d'elles, como me impõe o nome, a linhagem, o serviço do throno e do estado. Venha d'ahi, sellam-se dois cavallos, e em quatro horas estamos com elles.

—Não posso, senhor Martinho Vasques; a minha missão é toda de paz!

—Sei de muitos frades que se teem batido pela bôa causa.

—Sempre houve meus irmãos em Christo que usassem a cruz e a espada. Eu porém sou mais destro no manejo das armas espirituaes...

—Pois irei eu só. Não quero que notem a minha falta...

—Lembro-lhe a sua idade, meu senhor, e as molestias que tanto o tem impossibilitado. O melhor serviço que póde prestar ao senhor D. Miguel é dar mais alguma quantia...

—Tem razão, estou já muito velho para essas danças—concordou o morgado, procurando eximir-se á nova contribuição.